O aparecimento de personagens leitores no cinema é algo bastante comum. No entanto, o contrário, personagens cinéfilos na literatura, já não é muito abordado. O livro A contadora de filmes do escritor chileno Hernán Rivera Letelier faz essa inserção da sétima arte na narrativa literária ao caracterizar sua personagem principal como uma criança que desenvolve a habilidade de contar filmes oralmente.

Publicado no Brasil em 2012 pela editora Cosac & Naify, o livro conta a história da família da pequena Maria Margarita, a contadora de filmes, e da paixão de todos pelo cinema. A história é ambientada nos anos 1950 em um pequeno povoado do deserto do Atacama, onde a única diversão da população era a sessão de filme de domingo.

Após o pai de Maria Margarita sofrer um grave acidente de trabalho e ficar paralítico, a família se viu sem dinheiro para frequentar o cinema toda semana, já que o que recebiam da pensão dava apenas para as despesas básicas da casa. Apesar de todas as dificuldades financeiras, o pai encontra um jeito de mandar apenas um dos filhos para o cinema e, assim, decide promover um concurso para eleger quem será o contador de filmes oficial da família. A ideia era que Maria Margarita e seus quatro irmãos fossem, um por vez, ao cinema com o objetivo de assistir ao filme e memoriza-lo para que, quando chegassem em casa, contassem o filme nos mínimos detalhes para os outros. Após os testes, Maria Margarita foi eleita a contadora de filmes da família e passou a ir sempre ao cinema. Ao voltar, contava a história detalhadamente, encenando, cantando e se utilizando dos mais variados recursos para ser fiel ao filme assistido. Devido ao seu talento, além de contar para o pai e para os irmãos, a menina passou a narrar os filmes para toda a vizinhança e para as pessoas mais ricas do povoado, fazendo disso um pequeno negócio.